Porque a mula é infértil?
Mula prenhe de 10 mese,s em Lagoa Dourada MG Set 2007
No desenvolvimento das espécies, quando duas linhagens se
distanciam no seu processo evolutivo, vão gradativamente se especializando e
modificando seu genótipo por mutações e seleção natural, de tal forma que
muitas vezes, um retorno a uma espécie comum torna-se impossível. Isto ocorreu
com inúmeros animais, mas o caso do cavalo e do jumento é o que melhor ilustra
este fato.
As duas espécies saíram de um
tronco comum e se mantiveram isoladas, sem misturar seus genes, desenvolvendo
características diferentes de acordo com a seleção natural: O cavalo que vivia
em grandes manadas nas pradarias, desenvolveu maior musculatura, cascos largos,
temperamento explosivo, rapidez e agilidade para fugir dos predadores. Já o
jumento, que teve durante muito tempo seu habitat em regiões desérticas,
montanhosas e rochosas do norte da África e Oriente Médio, sofreu menor pressão
de seleção natural para a fuga, tornando-se um animal mais observador e
desconfiado.
O desenvolvimento independente
provocou o aparecimento de duas espécies diferentes: o cavalo com 64
cromossomos e o jumento com 62.

O cruzamento entre estas duas
espécies produz o Muar ou o Bardoto (2n=63),
ambos considerados híbridos.
A primeira explicação da esterilidade do híbrido foi dada
por Wodsedalek em 1916 que sugeriu como motivo da não produção de
espermatozóides pelo macho, um bloqueio na meiose devido à incompatibilidade
dos cromossomos dos pais. Em 1973, Taylor e Short demonstraram que um bloqueio
parcial da meiose ocorria também na fêmea híbrida, provocando um baixíssimo
estoque de oócitos ao nascimento.
Entretanto,
nos últimos 200 anos existem por volta de 60 registros de mulas paridas em todo o mundo, sendo que apenas nas
ultimas duas décadas houve confirmação pelo exame do cariótipo. Na maioria
destes casos o produto das mulas tem cariótipo de Jumento, Cavalo ou Muar,
dependendo do reprodutor usado e dos cromossomos presentes no ovócito. Henry e
al. acompanharam vários partos de uma mula em Minas Gerais cruzadas tanto com
cavalo quanto com jumento e as crias tinham o nº de cromossomos igual ao do
reprodutor usado e eram férteis, portanto houve uma volta para uma das duas
espécies originais Apenas em um caso na China com uma bardoto fêmea e outro
mais recente em Marrocos de uma Mula parida, constatou-se um cariótipo
intermediário, não sendo possível classificá-lo nem como Jumento, nem Mula e
nem Cavalo. www.mulaparida.com
Uso da Mula como receptora
Como características externas, uma boa égua receptora deve
possuir as duas tetas funcionais, bom porte, baixa exigência nutricional
permanecendo sempre com aspecto de bem nutrida, pêlo liso e boa habilidade
materna, (termo que inclui, além da produção de leite, cuidados com a cria como
deixar mamar e ter bom instinto de proteção.). Além disto serem dóceis e de
fácil manejo.
Como histórico, devemos saber: costuma perder o embrião?
Intervalo entre partos de um ano? Sempre desmama potros desenvolvidos?
Ao exame ginecológico, deve possuir vulva em posição
vertical e com bom fechamento, todo o sistema reprodutivo de tamanho normal,
útero com tônus e cérvix fechada na fase progesterônica e cérvix aberta e presença
de edema na fase estrogênica, alem de boa drenagem uterina: sem líquidos na luz
uterina e nem cistos endometriais. Os ovários devem ser normais e de
preferência ativos.
Com estas premissas em vista, os
veterinários Euler Andrés Ribeiro e Marcelo de Oliveira Mello, especialistas em
reprodução eqüina radicados em Entre Rios de Minas, resolveram testar o uso de
mulas como receptoras de embrião e criaram o projeto MULA PARIDA.
Na estação de monta 2006 / 2007, cinco mulas foram usadas
para o teste na fazenda Sta Edwiges em Lagoa Dourada, criatório tradicional de
muares e jumentos da raça Pega.
O trabalho consistiu em avaliar criteriosamente as
receptoras, descartando as que não se enquadrassem no padrão exigido, inseminar
as éguas, acompanhar a ovulação e fazer
a transferência do embrião no D8 para 5 “mulas de elite”. Devido à dificuldade
de se sincronizar as ovulações das mulas com das doadoras, observado por Davies
(1985) e Camillo (2003), foi optado por adaptar para as mulas, protocolo
hormonal de progesterona. Segundo os trabalhos publicados em todo o mundo, até
então toda tentativa de se usar protocolo de progesterona para manter gestação
em mulas havia fracassado (Camillo 2003). No presente trabalho, foram
transferidos um total de sete embriões para 5 mulas em 3 períodos de cio
diferentes: três animais foram diagnosticadas como gestantes aos 14 dias e um
animal perdeu o embrião logo após.
O criatório de jumentos Pega da
fazenda Santa Edwiges é um dos melhores do país, sendo o seu proprietário,
Tarcísio Resende, grande entusiasta do
uso da tecnologia aplicada à agropecuária.
Referências:
1- Wodsedalek 1916
http://links.jstor.org/sici?sici=0006-3185(191601)30%3A1%3C1%3ACOSITM%3E2.0.CO%3B2-K
2- Camillo
2003
http://www.blackwell-synergy.com/doi/abs/10.1046/j.1439-0531.2003.00444.x